quinta-feira, 2 de maio de 2019

ENTREVISTA COM A MISSIONÁRIA ALESSANDRA LACERDA




REVISTA PROCURANDO OS PERDIDOS – CAMPO MISSIONÁRIO

ENTREVISTA COM A MISSIONÁRIA ALESSANDRA LACERDA 
DO PROJETO KUNHIMELA - MAPUTO - MOÇAMBIQUE

Atuar no Campo missionário requer muito mais que boa vontade. Exige preparação teológica, psicológica e determinação para enfrentar diariamente desafios que a grande maioria dos cristãos não estaria disposta a enfrentar.
Para iniciarmos nossa série de entrevistas com missionários escolhemos a Missionária Alessandra Lacerda, que juntamente com seu marido, Missionário Lízias Cabral Filho estão à frente do Projeto Kunhimela, da Igreja Batista Kunhimela, em Maputo, Moçambique.




 Projeto Procurando os Perdidos (PPP): Graça e Paz Missionária Alessandra?

Missionária Alessandra: Graça e paz irmão Antônio Carlos, antes de iniciar nossas respostas, gostaria de agradecer por nos oportunizar apresentar nossa história bem como o trabalho missionário aqui em Moçambique, sul do continente africano.

PPP: Conte-nos um pouco sobre o seu chamado para o Campo Missionário.
Você nasceu em um berço evangélico? Quando você sentiu que Deus a havia chamado para ser missionária? Você está ligada administrativamente a alguma Junta Missionária? Qual? Como foi sua preparação para atuar como Missionária Transcultural? Desde o início de sua formação teológica você queria atuar em Moçambique ou o “acaso” a conduziu até essa nação? Houve um período de aculturação ou você saiu da Junta Missionária diretamente para Moçambique?
Ufa, vamos com calma não é?

Missionária Alessandra: Sou a filha mais velha de três irmãos criados em berço evangélico e desde muito cedo estive envolvida nas atividades voltadas para  ensino, cuidado e a pregação do evangelho.
Minha história de chamado missionário vem desde a adolescência quando entendi que poderia fazer algo a mais do que eu já fazia.
Iniciei então, uma caminhada de preparo e serviços mais direcionados a tal.
Em 2008, fomos para Belo Horizonte, onde existe a base da JAMI - nossa junta de missões e lá fizemos o curso de especialização em missiologia no CETRAMI, escola de missões da CBN, onde fomos preparados para o trabalho como missionários transculturais.
Nunca me ative a um campo específico, sempre entendi o chamado de Deus para onde Ele direcionasse. Dessa forma, pensamos em países como Timor Leste, Burkina Faso entre outros. Entretanto, devido a uma necessidade específica, fomos convidados a trabalhar em Moçambique. Devido à necessidade vigente naquele momento, não tivemos um período de aculturação em outro país.

PPP: Conte-nos como foi a sua adaptação ao novo país e o que a fez ter a certeza de que havia feito a escolha certa?
Missionária Alessandra: Nossa adaptação foi relativamente boa.
Muitas pessoas pensam que “falamos a mesma língua” pelo fato de Moçambique ser uma colônia portuguesa. Entretanto, a dificuldade de compreensão dos nossos irmãos nos preocupava muito, dessa forma, precisamos modificar boa parte do material de trabalho a fim de alcançarmos os resultados satisfatórios.
Outro ponto que vale relembrar é quanto ao transporte, pois não tinhamos meio de transporte pessoal e isso dificultou muito nossos 04 primeiros anos de serviço.  Mesmo assim, ao nos depararmos com a realidade de Moçambique e do quanto nossos serviços auxiliavam aos irmãos moçambicanos, tivemos a certeza de que Deus nos colocou aqui a fim de colaborarmos com a expansão de Seu reino.

PPP: Quando você e seu marido Lízias chegaram a Moçambique já existia o Projeto Kunhimela e há quanto tempo vocês estão à frente do Projeto?

Missionária Alessandra: Quando chegamos em Moçambique nosso trabalho era com formação de obreiros nacionais e auxílio às igrejas Batistas Renovadas da região sul de Moçambique. Após 06 anos servindo aos irmãos moçambicanos, Deus nos direcionou mais especificamente para um trabalho com um grupo pouco assistido aqui: - as crianças. Foi assim que o KUNHIMELA nasceu. Embaixo de uma mangueira no quintal cedido pela dona da casa onde alugamos.
Contávamos histórias bíblicas aos domingos, depois passamos a contar durante a semana. Nos apresentamos aos líderes do bairro e foi então que expusemos nosso desejo de ajudar com atividades em apoio à comunidade, dessa forma, contamos hoje com aproximadamente 10 atividades com crianças, jovens e adultos, além dos programas realizados pela igreja que também foi plantada no mesmo local, já há 03 anos.

PPP: Quais foram os principais desafios enfrentados por vocês no início das atividades do Kunhimela e como é pregar o Evangelho onde predomina o curandeirismo e o sincretismo religioso?

Missionária Alessandra: Os desafios foram incontáveis, desde a falta de mão de obra qualificada (tanto para a igreja quanto para o projeto), adequação do local utilizado (as atividades acontecem no quintal da casa que alugamos para viver) bem como a falta de segurança, pois nossas atividades acontecem todos os dias, em horários diferentes. Sem sombra de dúvidas, pregar o evangelho em meio à essa mistura de animismo e a prática da chamada “religião tradicional africana” é algo extremamente delicado. Grande parte da comunidade se diz adepta de alguma confissão de fé, porém, ao longo dos anos vimos que essa é apenas uma desculpa para não serem convidados ao evangelho transformador de Cristo, uma vez que existe uma dependência muito grande “da benção dos antepassados” ou do escambo (trabalho ou qualquer tipo de ajuda) através da religião. É muito comum você conversar com alguém que “é muçulmano” pelo fato de trabalhar em um local onde os donos exigem que os funcionários professem a sua fé entre outros.

PPP: Quais são as atividades desenvolvidas pelo Kunhimela atualmente?
Missionária Alessandra: Atualmente no projeto temos:
- ensino pré escolar;
- reforço escolar;
- inglês;
- aulas de música;
- aulas de canto e teoria musical;
- corte e costura;
- artesanato;
- programa de assistência básica alimentação;
- Alfabetização de jovens e adultos;
- prática esportiva;
Além das atividades realizadas pela igreja com cultos, visitas domiciliares, estudos bíblicos e atividades no âmbito social (palestras informativos, bazar de novos e usados, entre outros).

PPP: Por faixa etária, como estão distribuídas as atividades do Projeto?
Missionária Alessandra:
- As atividades pré escolares atendem às crianças dos 03 aos 05 anos;
- O reforço escolar auxilia aos alunos do 1º ao 9º ano do ensino fundamental;
- A alfabetização de jovens e adultos se destina a todos os que não tiveram condições de frequentar a escola;
- A prática esportiva atende às crianças e adolescentes;
- As demais atividades são oferecidas de acordo com o desejo e aptidão dos interessados em se tornarem alunos;

PPP: O Kunhimela conta com quantos colaboradores? São renumerados ou voluntários?

Missionária Alessandra: Atualmente temos em torno de 15 colaboradores, sendo 06 na escola e os demais nas atividades de ensino as quais foram designados. Como o projeto é totalmente sem fins lucrativos, cada um dos nossos colaboradores são jovens cristãos que entendem a realidade do projeto e recebem uma ajuda de custo mensal a fim de auxiliar nas despesas de transporte e outras.

PPP: Como são custeadas as despesas dos alunos do Kunhimela?
Missionária Alessandra: As despesas geradas a partir das atividades oferecidas aqui no projeto são custeadas por padrinhos, madrinhas e outros (igrejas e anônimos) que se comprometem doando um valor mensal durante um ano ou o faz quando tem condições.

PPP: Podemos afirmar que o Kunhimela é mais que uma Instituição religiosa?

Missionária Alessandra: Sim, uma vez que a igreja surgiu a partir da necessidade de acolher aos jovens e adultos que sempre questionavam “porquê fazíamos  tantas coisas de borla (de graça)”. Nesse momento, explicávamos sobre o amor que gera esperança, transforma e nos dá a oportunidade de transformar o nosso futuro a partir de uma nova perspectiva.

PPP: Sendo assim, o que esperam passar de valores e princípios para as crianças e adolescentes que são alcançados pelo Projeto e como elas poderão utilizá-los na vida adulta?

Missionária Alessandra: Eu sou fruto de uma igreja extremamente envolvida com ação social e pregação do evangelho simples. Sempre que posso, conto um pouco da minha trajetória e de como Deus nos trouxe para Moçambique.
Ao longo desses 03 anos aqui, diariamente procuramos repassar valores pautados na ética, moral e bons costumes. Valores que nos levam “além das atuais perspectivas” de fracasso e desvalorização. Desse modo, tentamos ajudá-los a perceber todo o potencial existente em cada um deles e assim, despertar a capacidade de avançar um pouco mais com a ajuda de Deus.

PPP: Muito importante a visão que vocês têm acerca do Projeto e como têm caminhado apesar dos desafios. Como as pessoas, que se identificaram com o Kunhimela podem colaborar financeiramente para que ele mantenha e amplie as suas atividades?
Missionária Alessandra: Os interessados em colaborar podem doar seu conhecimento em alguma área como missionário de curto prazo, tornar-se um padrinho ou madrinha mensal do projeto ou ainda, ofertar um valor simbólico para as atividades que realizamos como igreja junto à comunidade. Além disso, é fundamental que cada um dos interessados em ajudar, nos cubra com intercessão em favor das atividades bem como de cada um que compõe esse todo no qual funcionamos: - professores, auxiliares, alunos, missionários, nossa junta e igreja enviadora.

PPP: Olhando para esses dez anos de atuação em Moçambique, você diria que valeu a pena toda a luta e os desafios pelos quais passaram?

Missionária Alessandra: Sem dúvidas!
Quando lembro dos olhares desconfiados das crianças para a “mulunga” (branca) de fala engraçada e do cabelo grande que “não é mecha” (aplique), meu coração revive a emoção de ouvir histórias de dor, mas também de experiências incríveis do que Deus pode fazer!
Algumas crianças testemunharam que familiares foram curados porque eles oraram a Deus e Ele as ouviu! Ter a certeza de que apesar de todos os percalços ao longo dessa caminhada a semente tem dado lindos frutos é a maior recompensa de que valeu a pena!

PPP: Sabemos que o IDH de Moçambique é muito baixo, o que demonstra as dificuldades enfrentadas pela população em todas as áreas: saúde, educação, alimentação e formação profissional . Diante desses desafios que estão longe de serem totalmente vencidos, quais as suas perspectivas em relação ao futuro do país e do Projeto Kunhimela?

Missionária Alessandra: Moçambique está hoje entre os 05 países com o IDH mais baixo do mundo, mas isso só nos impulsiona a seguir! Sempre aprendi que o “não eu já tenho”, então nunca desisitimos de sonhar, foi assim que meus pais me ensinaram. Sonhamos muito, mas não nos restringimos só a Moçambique. Esperamos em breve abrir novos núcleos do projeto, seguirmos no treinamento de liderança a fim de que tenhamos o suporte necessário para tão logo seja possível, alargarmos as fronteiras e alçarmos novos voos.

PPP: Para finalizarmos, qual mensagem e conselhos você gostaria de deixar para aqueles que sentem um chamado para atuar em Missões Transculturais.

Missionária Alessandra: É complicado aconselhar, entretanto, acredito que seja importante não nos fecharmos à espera de um chamado específico!
Deus nos quer usar onde estamos plantados e muitas vezes nos atemos a uma espera desnecessária.
Ir além fronteiras é algo que exige abnegação e preparo. A cada um dos que Deus tem dado essa convicção, se atenha à sua humanidade, já que ninguém sabe tudo e não existe o “super missionário(a)”. Somos todos falíveis e carecemos da graça e misericórdia de Deus.
Quando entendemos que a obra é Dele e Ele a torna confiável a nós, temos muito mais probabilidades de obtermos êxito.
Que o Senhor nos continue direcionando a fim de que apenas Sua vontade seja realizada em nós e através de nós.

PPP: Agradecemos a Deus por sua vida, por seu empenho e dedicação incansáveis na obra que Ele te confiou. Acreditamos que nossa entrevista servirá de incentivo para aqueles que têm um chamado para Missões e também o fortalecimento da crença de que missões não se faz apenas indo para o campo missionário, mas também com orações, divulgação e contribuições financeiras para a manutenção dos missionários e dos projetos que dirigem.
Que o Senhor a abençoe grandemente e continue te usando com poder e autoridade, fazendo com que através do trabalhos das suas mãos vidas sejam alcançadas, estruturadas, edificadas e fortalecidas nos caminhos do Senhor.



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